A mutação

A mutação
Que momento é esse no qual vivemos? Responder a essa questão não é uma tarefa fácil.
É somente quando compreendemos as características do contexto no qual vivemos que tornamos
capaz de não só responde-la, mas, também, de atuar, de educar e de nos orientar. Como
resposta à questão levantada diríamos que hoje vivemos a era da técnica. Porém, dada a corrente
utilização da expressão, cabe explicitarmos o porquê de tal consideração, uma vez que a técnica
desde os primórdios da humanidade acompanha o homem.
Apesar de a técnica acompanhar o homem desde o desenvolvimento de sua
racionalidade, a partir das últimas décadas do século XX, está ocorrendo transformações na
ordem social que se constituem em argumentos suficientes para afirmarmos a dependência do
homem pela tecnologia. Tal dependência é bem explicitada por Paula Sibilia (2002) quando a
autora recorre a mitologia grega, através do mito Prometeu, e a mitologia alemã, através do mito
de Fausto, para mostrar como o homem constitui-se através de uma formulação técnica dos
deuses. Posteriormente, passa a deter o domínio da técnica, mas, na atualidade, torna-se vencido
por ela.
Em seus trabalhos, a autora descreve que a civilização, de origem Prometeica passa, na
atualidade, por uma tensão com a configuração Fáustica da sociedade. Na mitologia grega,
contada através das tragédias de Ésquilo (465 a.C.), Prometeu é o deus que lutou pelo bem estar
humano fornecendo-lhe a razão e a sabedoria, dotando-o da capacidade de dominar a técnica.
Detentor do poder da predição sabia que Júpiter, ao tornar-se o deus condutor das decisões sobre
o universo, desejava deixar a espécie humana na condição de animalidade. A dúvida de Júpiter
era, então, se a humanidade deveria ser substituída por outra, de sua criação, ou permanecer em
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situação de criaturas irracionais. Com pena de sua criação, Prometeu contrariou as ordens de
Júpiter, que então eram supremas, e roubou uma faísca do fogo celeste e a deu a humanidade.
Desta forma, os homens foram dotados de razão, de inteligência e passaram a conhecer as
ciências e as artes sem necessitar da intervenção divina.
Já em Teogonia, Hesíodo (Séc. VIII a.C.), nos conta que Prometeu ao chegar à terra
descobriu-a abandonada pelos céus. Como conseqüência, apanhou um pouco de argila e molhou
com um pouco da água de um rio, fazendo dessa matéria o homem, à semelhança dos deuses,
para que fosse o senhor da terra. A mitologia ainda conta que, Prometeu apanhou as almas dos
animais, animando sua criatura. O titã pediu a Atena, deusa da sabedoria, o sopro divino para sua
criação, dando assim, origem aos primeiros seres humanos que logo povoaram a terra. Foi
Prometeu o responsável, também, pela criação da máquina como extensão humana. Como os
homens nada sabiam sobre os assuntos da terra e do céu e vagavam sem saber a arte da
construção, da agricultura, da caça ou pesca, ele se aproximou e ensinou às suas criaturas todos
esses segredos, inventando, inclusive, o arado para que o homem plantasse, e a cunhagem das
moedas para que houvesse o comércio, a escrita e a mineração. Ensinou-lhes, também, a arte da
profecia e da astronomia, todo o necessário para o desenvolvimento da humanidade.
Ao recorrer à mitologia Grega, especificamente aos mitos que tratam de Prometeu, fica
claro que, apesar das divergências entre os textos de Hesíodo (Séc. VIII a.C.) e Ésquilo (465
a.C.), ambos apontam para Prometeu como responsável pela razão e auto-suficiência humana.
Em outras palavras: Prometeu forneceu à humanidade a técnica e, como conseqüência, os homens
utilizam-se da técnica para desenvolver experimentos, máquinas e ferramentas. Diante deste
personagem Sibilia (2002), exemplifica a tecnologia como criação e, por conseqüência, extensão
humana. Para a autora, “tal mito denuncia a arrogância da humanidade, em sua tentativa de
usurpar as prerrogativas divinas por meio de artimanhas e saberes terrenos” (p. 43). Antecedendo
a era midiática, as tecnologias davam suporte aos afazeres do homem e apesar das mesmas
interferirem de maneira objetiva em suas vidas, eram dominadas pelo homem, haja visto que “na
tradição Prometeica pretende-se dominar tecnicamente a natureza, visando o bem humano, a
emancipação da espécie e, fundamentalmente das classes oprimidas”. (SIBILIA, 2002, p. 44).
Utilizando-se de Prometeu, a autora informa como o espírito iluminista prima pela fé na
racionalidade, pela perfeição da ciência como conhecimento cartesiano e confia em que a ciência
está a serviço da melhora das condições de vida dos seres humanos. Entretanto, estando a
humanidade agora em um período de transição, que é marcado pela aceleração do avanço
tecnológico e sem uma determinação certa de como e para onde este avanço irá nos levar, Sibilia
(2002), através de um personagem da mitologia Alemã, Fausto, descreve a forma desenfreada na
qual a tecnologia promove alterações na sociedade contemporânea.
De acordo com uma lenda popular alemã, cuja origem está nos poemas de Johann Goethe
(1806), Fausto é um médico mágico e alquimista que desiludido com o conhecimento de seu
tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles. O demônio, como parte do contrato
compactuado, fornece à Fausto a energia satânica, insufladora da paixão pela técnica e pelo
progresso. Esta mesma energia, porém, faz de Fausto um homem desdenhoso das consequências
e estragos de sua Ciência, “tornando-o um gênio leviano, um louco obcecado pelo progresso e
cego para tudo mais” (SIBILIA, 2002, p. 43). Segundo Berman (apud SIBILIA, 2002, p. 43),
mesmo sendo a história contada em diferentes versões nos últimos quatro séculos, “a tragédia ou
a comédia se produz quando Fausto perde o controle de sua mente, e passa a adquirir vida
própria, dinâmica e altamente explovisa”.
De acordo com a autora, no tipo de saber Fáustico, “a tecnociência contemporânea almeja
ultrapassar todas as limitações biológicas ligadas a materialidade do corpo humano”. Este é o
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saber que responde pelo hoje, onde a “tecnologia é colocada a serviço da reconfiguração do que é
vivo e em luta contra o envelhecimento e a morte” (p. 49). Como argumento para suas
afirmações, a autora recorre à biotecnologia, aos avanços das indústrias de próteses e a fusão dos
aparelhos e equipamentos criados por estas indústrias e o corpo humano, combinando orgânico e
inorgânico, fazendo assim do homem um sujeito não natural em sua plenitude e também não
inteiramente artificial.
Como Fausto buscava controlar a natureza através da ciência e, através de seu pacto com
Mefistófoles, alcançou, inclusive, o controle total sobre a vida, atingindo a imortalidade, a autora
extrapola a transição da sociedade contemporanea para afirmar que, através das atuais
tecnologias, caminhamos para o fim da morte. Isto porque:
As tecnologias da imortalidade estão na mira de várias pesquisas atuais,
de inteligencia artificial à engenharia genética, passando pela criogenia e
por toda farmacopéia antioxidante. Estaria então a própria morte
ameaçada de morte? Tomando emprestado a retórica de seus detradores,
ela estaria ficando obsoleta. (SIBILIA, 2002 p. 50)
Desta forma, as máquinas que, até então, estavam sob o domínio do homem, sendo
consideradas como extensões humanas na sociedade Prometeica, passam a dominá-lo. O ápice
desta constatação, segundo Sibilia (2002) se deu na decodificação do genoma humano e na
apuração de que a síntese do homem pode ser convertida em pulsos eletrônicos. É preciso
lembrar que, conforme bem descreve a autora, a criação de uma cultura não leva as anteriores ao
desaparecimento o que as faz, inclusive, co-existirem simultaneamente em um mesmo espaço ou
tempo. Portanto:
A alusão aos referidos mitos pretende nomear duas tendências
identificáveis na base epistemológica da tecnociência de diversas épocas,
porém elas não se constituem necessariamente um par de oposições
dicotômicas. Pelo contrário, trata-se de duas linhas em perpétua tensão.
Ambas as inclinações podem conviver em um mesmo período histórico e,
inclusive, nos textos de um determinado autor. (SIBILIA, 2002, p. 44)
Num breve resumo, para Sibilia (2002), até a modernidade os sujeitos eram controladores
das máquinas fazendo das mesmas suas extensões. A transição da sociedade Prometeica para a
Sociedade Fáustica promoveu uma inversão nas características sociais, colocando o homem sob
domínio tecnológico, buscando mesmo através das “tecnologias da imortalidade”, o domínio da
natureza e a vida eterna. A autora, ao trabalhar as questões relativas à formação das
subjetividades e da organicidade do homem, revela que são as tecnologias as responsáveis pela
inserção do sufixo pós nas atividades e na natureza humana fazendo do corpo biológico um
empecilho para o alcance de um dos mais antigos sonhos do homem: a imortalidade.
É em oposição à tradição prometeica, que pensa a tecnologia como a
possibilidade de estender e potencializar gradativamente as capacidades
do corpo (sem aspirar ao infinito, guardando certo respeito pelo o que é
humanamente possível e pelo que ainda pertence ao território divino), a
corrente fáustica enxerga na tecnociência a possibilidade de transcender a
condição humana. [...] Adequadamente definido como "fáustico", tal

projeto é extremamente ambicioso: valendo-se dos sortilégios digitais, ele
contempla a abolição das distâncias geográficas, das doenças, do
envelhecimento e da própria morte. (SIBILIA, 2002, p. 13)
É certo que no centro da revolução pela qual passa a sociedade encontram-se os circuitos
integrados, capazes de armazenar imensuráveis quantidades de informações e disponibilizá-las
instantaneamente, e os softwares que convergem e gerenciam essas informações em dados, para
que sejam distribuídos em escala glocal. Detalhe: se por um lado, os circuitos integrados
caminham da nanotecnologia para a pisictecnologia, atingindo, hoje, o tamanho de uma célula
humana, com capacidade de manipular cada vez mais informações, por outro, os softwares
tornam-se mais simples, volvendo uma manipulação exponencialmente mais acessível para os
sujeitos.
A facilidade de manipulação e a crescente utilização de dispositivos digitais como cartões
de crédito, senhas de acesso e a ascendente interligação de bancos de dados descortinam e
ultrapassam a identificação do sujeito habitante, transformando-o em uma célula de uma rede
rizomática e é desta forma que a obsessão de Fausto pelo progresso minimizou os limites da vida
humana e potencializou os da tecnologia, promovendo a evolução do homem-máquina para o
homem-informação.
Através do exposto é possível visualizar a atualidade como um momento de mutação. O
hoje pode ser enxergado como puro interstício entre a sociedade geradora de saber do tipo
Prometeico e a geradora do saber tipo Fáustico, o que significa, portanto, o não desenvolvimento
por completo de um pensamento sistêmico mas, também, ainda, a inadequação ao pensamento
complexo, rizomático, apontado pela atualidade como habilidade impreenscindível para a
cotidianiedade.

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